OBSOLESCÊNCIA
quinta-feira, abril 30, 2020
O “FIM” ABSOLUTAMENTE HUMANO DE OZZY OSBOURNE
Eu posso dizer ter sido absolutamente acidental meu contato com Ozzy Osbourne há dois meses e umas semanas. Estava no YouTube, como quando estamos passando canais na televisão, e me deparei com um título “Ozzy Osbourne, impossível não amar” do Júlio Victor. Cliquei e, para minha surpresa, o vídeo era produzido por um canal que amo e respeito absolutamente, o Antídoto.
Algumas das coisas que pretendo descrever podem ser oriundas desse vídeo que mencionei acima ou de outros reviews gringos que acabei vendo acerca do álbum. No entanto, tentei manter a minha opinião o mais original possível, quando assim não o for, avisarei.
Fica como recomendação o tal vídeo do Júlio (feat. Antídoto), é realmente bom e foi a partir dele que fui pesquisar as novas músicas do Ozzy, ou melhor dizendo, do novo álbum, a começar por Straight to Hell… É aqui que começa esse texto sobre o Ordinary Man (lançado em 21 de fevereiro de 2020), somado às reflexões musicais e intervenções relativamente subjetivas.
O texto não dá conta de todas as informações acerca da produção, da banda, isto é, os músicos envolvidos, ou outras coisas que possam lhes interessar, por isso, sempre recomendo a pesquisa individual a partir dos vídeos que fiz menção. Mas algo já muito notável são alguns músicos que participam como Duff McKagan, Slash, Chad Smith, Tom Morello, entre outros de renome.
Straight to Hell abre o álbum com o que se espera do dito Prince of Darkness… construindo o clima de assombro, com um coro anunciando o que está por vir, quase como uma tragédia, e logo se segue a guitarra, adequada ao gênero (comentarei sobre as guitarras adiante).
“Alright now!”
Ainda durante o riff principal, ouvimos pela primeira vez aquela voz familiar e que, em minha opinião, não canta bem. Em outro vídeo, o mencionado Júlio Victor fala sobre o fato de o Ozzy não possuir grandes habilidades vocais no início da carreira. Eu não poderia concordar mais. Inclusive, isso é algo que gosto muito, a suposta falta de técnica. Fico imaginando se perderíamos um Ozzy nesses programas vexatórios e horrendos como The Voice, X Factor, etc (fodam-se todos esses). Há algo de belo em “não cantar bem”, torna orgânico e próximo, quiçá humano. Aliás, é mais sobre o que é cantado, ou ao menos deveria ser.
Essa primeira sentença é uma referência clara à Sweet Leaf [Master of Reality (1971) - Black Sabbath]. Essa “intertextualidade” ou ainda “autotextualidade” é parte da premissa de Ordinary Man: a história de si.
Seguindo, estamos diante de um som agressivo (o vídeoclipe que reforça esse caráter) com uma letra simples e assustadora, terror típico de outras composições: “I will make you scream, I will make you defecate” ou o próprio refrão “We’re going straight to hell tonight”. Para primeira música do álbum, a volta de Ozzy em dez anos de hiato, não é nada mal. O tema e o próprio instrumental são familiares aos fãs e mesmo àqueles que só tinham algumas impressões do que esperavam ouvir.
Quanto ao instrumental, a guitarra principal vem de Slash e o baixo de Duff McKagan, ambos conhecidos de nós por conta de Guns N’ Roses. Penso que tal fato deixa a música menos heavy metal do que poderia. Com muito pouco esforço, reconhecemos o hard rock familiar a esses dois.
ALL MY LIFE
Nessa faixa, mais calma que a anterior, afirmo estar mais evidente aquela premissa, sendo os temas principais do álbum a história autoconsciente e a predição do fim. Ambas as coisas relacionadas à vida de Ozzy, mas gostaria de propor que pensássemos além, pois foram estes temas que me fizeram gostar tanto desse álbum. Cada vida é diferente, mas certas coisas são universais, que podem ocorrer em diferentes momentos da vida; e esse álbum conversa diretamente comigo (e apostaria que não só comigo) nesse momento.
Não bancarei o saudosista a todo momento aqui, outrossim condeno tal atitude, porém ressalto que o solo antes do último refrão lembra um pouco os timbres das músicas mais antigas [especialmente No More Tears (1991) e Ozzmosis (1995] e clássicas do nosso prestigiado.
Esse tom memorioso da música, como se remontando às origens (da carreira solo, não necessariamente com o Black Sabbath), é como alimentar o próprio espírito do rock e do heavy metal, alimentar isso em si é como ser jovem para sempre, uma vez que o gênero está velho e próximo da obsolescência (explico isso melhor em Under The Graveyard e It's a Raid).
Para seguirmos em frente, destaco os versos da ponte entre os refrões: Heaven can take me / But no one can save me from Hell again / You'll never erase me / I'm back on the road again
Ele voltou, consciente de sua história e é isso que ele se propõe a (re)apresentar a todas e todos.
GOODBYE
A introdução, ao meus ouvidos, remonta ao seu clássico Iron Man, certo? No mais, a música me cativa pouquissimamente, contudo de modo algum quer dizer que seja ruim. Pode soar monótona a princípio, contudo é de se surpreender sua progressão e suas variações… Ela continua o tema da memória e acrescenta a solidão, ou melhor, a autonomia forçada. No fim, são vocês por vocês, minhas caras e meus caros.
Além é claro do tom de despedida natural que há na vida... No céu tem chá?
A faixa que dá nome ao álbum… Tentarei ser breve, porque essa composição é incrível. O som é uma balada, a marca clara da parceria com Elton John, que somada ao rock de Ozzy, torna-se épica e monumental, digna de ser eleita o título de toda obra.
Com um tema tão presente e consistente (há aqueles que julgarão até enjoativo e entediante a repetição), essa música bastaria para sintetizar a ideia das duas anteriores, acerca da história e da carreira. Apesar disso, prefiro pensar que ela encerra esse arco de três músicas belissimamente, o piano de Elton John é mais do que adequado para a letra desta música, atribuindo-lhe o tom intimista e reflexivo.
"Many times I lost the control / And try to kill my rock and roll", momento em que a voz do Rocketman (não assisti ao filme, mas sei de modo raso do que se trata) aparece; além desse, outros versos tem um caráter profundamente humano da composição, aqui conhecemos as "entranhas" de sujeitos melancólicos a partir da retrospectiva da própria vida. O vídeo mais recente também é bom para entendermos isso.
"Many times I lost the control / And try to kill my rock and roll", momento em que a voz do Rocketman (não assisti ao filme, mas sei de modo raso do que se trata) aparece; além desse, outros versos tem um caráter profundamente humano da composição, aqui conhecemos as "entranhas" de sujeitos melancólicos a partir da retrospectiva da própria vida. O vídeo mais recente também é bom para entendermos isso.
O fato é que, com tal obra, é impossível morrer como um homem comum.
Aqui, encontramos o momento de maior aproximação com a morte e o fim. Como tocamos no assunto de humanização na música anterior, essa que se segue é o ponto máximo de tal. Com uma letra profunda e mórbida, somos postos diante de sentenças (quase no sentido original da palavra, sententiae, proposições intelectuais simples e marcantes) em versos, que nos fazem refletir sobre o ocaso da vida.
Nada é tão humano quanto a morte, podemos ser diferentes de muitos modos e maneiras, mas o término do caminho é o mesmo.
Uma vez que trata da morte, retomo o que comecei sobre a obsolescência (ver acima): Grandes nomes do heavy metal e seus gêneros relacionados ou derivados estão envelhecendo, cada vez mais próximos do fim natural. Isso em partes será levado com eles, depende muito de quem vai ficar aqui e dar continuidade aos legados. Contudo, acredito que não deva ser de forma nostálgica, deve-se inovar, tomando-os como modelo. O rock precisa disso para não ser esquecido após sua morte. Ozzy sabe disso e passou a mensagem.
Por fim, duas coisas: o videoclipe (link no título) retrata um dos momentos mais dramáticos e frágeis da vida do artista, fragilidade essa que com respectivas particularidades, torna mais próxima a identificação, papel essencial da arte; e, à parte o vocal, musicalmente, infelizmente, a faixa comove pouco. Não há muito que dizer mesmo sobre.
EAT ME
Voltando para animar o álbum, Eat Me vem com outra energia, um pouco mais despretensiosa e descontraída (não tanto como se verá adiante). O baixo é evidente, bom e ousado, mas pouco independente, seguindo a mesma linha das guitarras - vale o destaque ainda assim.
No entanto, antes de seguirmos, gostaria de propor uma outra interpretação: quase como um desafio de um vaso ruim que não quebrou: lembremos de Memórias Póstumas de Brás Cubas ou outros momentos da literatura em que estão tratados os vermes que comerão o cadáver (a carne dada aos vermes, segundo uma etimologia interessantíssima, mas não verdadeira). Ozzy lança uma última provocação audaciosa a eles (talvez nós…), como se quisesse dizer “É isso aí, morri, foda-se, terão de me engolir!”.
TODAY IS THE END
A descrição de um cenário apocalíptico em The sun is black / The sky is red … The kids are running / As fast as they can / And it feels like today is the end com o instrumental e o vocal melódicos podem significar duas coisas: primeiro, uma falha e incoerência de fato; ou, por outro lado, a serenidade de quem já esteve diante do inferno (como boa parte das músicas anteriores reforça) e está vendo só mais um.
Considero o tema do fim próximo já estava muito bem encerrada em Under the Graveyard, sinto que essa música é como um filler. Sublinho, apesar disso, que é uma música interessante e bem “moderna”. A melodia é bela e fica na memória, algo realmente mais pop (talvez o maior sinal da parceria com Andrew Watt, que já produziu com Justin Bieber, Camila Cabello, Cardi B, etc. e que o próprio Metal Madman afirmou que adoraria fazer um outro novo trabalho).
A partir desse termo “moderno” lanço mão de uma outra tese acerca desse álbum, a saber, a de que ele é uma aposta para chamar a atenção de pessoas mais jovens, que só ouviram falar de Ozzy Osbourne pelos por parentes ou amigos mais velhos. Com esse som mais leve e melódico, Ozzy não está excluindo ninguém do seu raio. Desenvolvo isso, porém, adiante.
SCARY LITTLE GREEN MEN
“O que essa música está fazendo aqui?”. São palavras da minha cara amiga Larissa Souza - anjo com quem já escrevi um outro texto, dessa vez sobre Depeche Mode. Se Eat Me não foi descontraída o suficiente, Scary Little Green Men veio para tal função. Vejam por vocês mesmos… A letra é ainda assim interessante, mas não sei…
HOLY FOR TONIGHT
O Carpe Diem que um bom poeta deve ter, ou nesse caso, algo como um carpe noctem. A música não é longa, mas a repetição do refrão, que já é repetitivo, passam essa sensação de uma extensão enfadonha… E isso me parece ruim.
Fiquem em casa! Trancados por sete dias (ou mais)...
Essa faixa “encerra” o álbum de maneira ótima, como começou: enérgico e agressivo. Uma verdadeira ring composition. O álbum se salva aqui depois de uma sequência difícil de lidar.
Além de tudo isso, ela traz uma novidade para todos: a parceria com Post Malone. Não me deterei em explicar quem é o tal, mas são nomes que não esperávamos ver juntos. Apesar disso, It’s a Raid não é a primeira parceria de ambos os cantores. Ela data desde o Hollywood’s Bleeding (2019), álbum do rapper americano, na música Take What You Want.
A questão toda dessa faixa é que o Ozzy está se divertindo aqui, como apontado num outro review. Aquela energia, como na primeira música, como em seus clássicos Crazy Train ou Bark at the Moon, nos mostra como o cantor gostaria de se despedir efetivamente após ter relembrado a vida, a carreira e a morte vindoura, fica o recado para que nos lembremos dele enquanto o enérgico pioneiro do heavy metal.
Como já dito (a ideia é da mencionada Larissa), alimentar o espírito ‘rosqueiro’ de alguém é mantê-lo jovem para sempre, Ozzy Osbourne veio se reapresentar para aqueles que já o conhecem e o acompanharam, aqueles que conhecem todas as seis décadas e fases da sua carreira, mas tão importante quanto, veio se apresentar àqueles que não o conhecem e passar adiante tal espírito.
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