ENJOY THE [SILENCE] QUARANTINE

segunda-feira, abril 20, 2020

ELES ABRIRAM OS ANOS 90 COM CHAVE DE OURO. PARABÉNS PELOS 30 ANOS, VIOLATOR, VOCÊ É UMA ESTRELINHA QUE BRILHA, BRILHA E BRILHA.

 

    A razão de ser desse texto não poderia ser outra senão a quarentena. Explicamos: nós havíamos planejado ir ao Madame Underground Club Patrimônio Cultural e Histórico™ celebrar o especial daquela noite de 20 de março, que pretendia comemorar os 30 anos do álbum Violator, do Depeche Mode.
A Larissa foi a responsável por me apresentar a obra do grupo britânico, tendo, inclusive, feito o convite para irmos ao Madame em um outro especial da banda, que aconteceu exatamente três meses antes daquele no qual queríamos ir.
    Retomando, desde 16 de março, aqui em São Paulo, devido a isso tudo que vocês já sabem, o evento foi cancelado para ficarmos em casa, e “dançarmos juntos depois”, como o Madame sugeriu em uma publicação em sua rede social. Porém, para não deixarmos o aniversário passar em branco, decidimos ouvir o disco juntos e escrever sobre.


WORLD IN MY EYES

Larissa: O álbum é tão bom que a primeira é boa e é a que eu menos gosto.
Gabriel: Chama seu par para dançar juntinho e é isso aí.

   A popularidade do Violator pode começar a ser compreendida a partir dessa música. Como primeira faixa, ela já nos situa no que estamos em vias de encontrar: um Depeche Mode mais dançante que em seu álbum anterior (Music for the Masses - 1987), mas igualmente transgressor.  Usamos esse termo com diversos sentidos, mas queremos destacar a sua acepção pecadora e, consequentemente, tentadora a princípio.
     
World In My Eyes é um grande convite para o “flerte fatal”. A expressão pode parecer um pouco anacrônico para o ano de 2020 e até mesmo para 1990, mas ele compreende o tema da letra:

Let me put you on a ship

On a long, long trip

Your lips close to my lips

[…]

Let me show you the world in my eyes

   Entretanto, o instrumental também contém isso, diríamos até que a nocividade é reforçada pela letra e não o contrário. O ritmo e toda a composição são envolventes e o momento do refrão é o aviso tardio, uma vez que já estamos seduzidos e atraídos em todos os sentidos.


SWEETEST PERFECTION

G: “Guitarrinha” braba!

    Uma música perfeita em si. De um começo simples, mas com grandes pretensões. Dizemos isso porque, ao longo de quatro minutos e quarenta segundos, acompanhamos a sua evolução desde o primeiro verso acompanhado por poucos instrumentos, sutis.
     Inclusive, sutileza é um termo caro para apreciar essa música, não somente quanto ao instrumental, como também nos versos ao descrever a relação com a perfeição ou o algo perfeito, na tentativa de mantê-la inviolada:

And I hardly dare to touch

For fear that the spell may be broken

    Essa quase dependência a que nos referimos está contida nos versos que se repetem, mas cada um com intensidade diferente, em crescente. E a tal repetição, somada à intensidade, nos remete a uma certa obsessão, não?


PERSONAL JESUS

 


G: REACH OUT AND TOUCH FAITH!… Gosto muito.
L: Carregou o Violator.

    Quanto a mim, Gabriel, depois de 
Enjoy the Silence e Strangelove, esta delícia foi o que me atraiu a Depeche Mode. Vale lembrar que Personal Jesus foi o primeiro single do disco, sendo absoluta e forçosamente, uma decisão acertada.
    A razão está na mistura dos sons 
synthpop com um rock mais enérgico, até um pouco country e blues (o videoclipe reforça essa proposição) … o que explica muito da sua popularidade e também o porquê de existirem tantas versões dessa música (Johnny Cash, Def Leppard, Marilyn Manson, etc).


HALO

L: O crime compensa.
G: É.

    
I give in to sin 2.0.
   Talvez essa seja a música que mais deixa explícita a dualidade tão fortemente presente no 
Violator. Além da execução e andamentos fodas, a mensagem é clara e sintética, de forma alguma, porém, rasa - pura e absolutamente.
    Seria essa a deixa para 
Policy of Truth?


WAITING FOR THE NIGHT

L: O que é a noite para você?
G: A mimir.


    Essa música parece se apresentar como uma cançãozinha de ninar 
synthpop no começo. É uma excelente quebra no clima transgressor que vinha sendo construído desde a primeira faixa. No entanto, apesar de sua doçura, a música ainda carrega consigo uma certa aura sombria.
    Depois de ouvir sobre mundos e paredes sucumbindo em 
HaloWaiting for the Night nos conforta e nos prepara para a próxima faixa. Assim, vamos da tranquilidade ao silêncio.


ENJOY THE SILENCE

 

L: A Blue Dress que o Dave Gahan cantou?
G: “Eles zeraram tudo com esse final” - Larissa durante a volta da UNICAMP, 2020.


    
Enjoy the Silence é tudo. A ode por excelência do Depeche Mode, do synthpop, hino de uma época inteira… É a música que você vai querer ouvir quietinho, dançar sozinho, dedicar a quem você ama, postar a letra na sua rede social, colocar na festa da família ou mostrar para aquele/a amigo/a que não conhece a banda (fazendo ele/a perceber que conhece, sim)…
São inúmeras as possibilidades, porque é assim mesmo que essa canção se apresenta, multidimensional em sua simplicidade, se é que ela pode ser chamada de simples. No entanto, na versão completa, logo após o fade out toda essa construção se altera, ou melhor, a ela é acrescentado um novo universo em potencial.
     Ressaltamos, também, que o instrumental que se segue, por não mais ser tão delicado, abre muito bem as portas para a música que vem em seguida e sua mensagem.


POLICY OF TRUTH

G: Favorita do álbum!

    Esse riff principal que cativa e fica na memória, de energia relativamente ousada e cínica, instiga à sedução e seus jogos, bem como nos alerta de seus perigos:

You’ll see your problems multiplied

    Por sinal, o fato de que essa música vem logo após Enjoy the Silence, a qual fala sobre como as palavras são desnecessárias e podem machucar, é perfeito. As duas caminham, de certa forma, pela mesma trilha. A diferença é que a primeira é mais suave no som e no que é cantado, e a segunda é mais sensual e dura, quase repreensiva. Logo, notamos ser a consistência do álbum patente com essa faixa, que foi o terceiro single.


BLUE DRESS

G: Essa música é bonita, sim!

    Blue Dress é um dos presentes que o Martin Gore nos dá colocando sua voz em alguma faixa inteira, neste disco, ela é a segunda. A letra é bastante despretensiosa, e até onde os olhos podem enxergar, a temática também o é: um homem feliz em somente ver a pessoa amada se vestir.
    Nesta canção, reside a mesma magia presente em 
Enjoy the Silence. As duas, com suas melodias magnéticas, vão direto ao ponto. Tratam do prazer nas pequenas coisas, mantendo os versos transparentes e sucintos, chegam ao fade out… e, então, entregam finais que mudam tudo o que ambas poderiam ter sido.
    O mais prazeroso é ouvir como os instrumentais são bem menos suaves que aquilo que a música nos havia mostrado até então. Como deve ser compor músicas como essas duas, com um primeiro “fim”, e ainda considerar “não está pronto, falta algo no final”?


CLEAN

 


    É possível extrair de Clean, um sentido de estar limpo muito mais amplo que o de não mais usar drogas, aquele que já conhecemos, principalmente por meio do contexto da banda. É como a liberdade de não ter mais vínculo a algo que te impedia de seguir a vida tomando suas próprias decisões.
No entanto, como tudo aqui tem dois lados, notem o “sometimes” na letra, não só pelo seu significado, mas também por quão sombrio ele soa. Essas características da palavra apontam para a realidade da instabilidade em estar limpo, são, e salvo. Você está, até não estar mais.
    Certamente há discos que terminam melhor, mas que outra música desse álbum o encerraria com mais acerto que 
Clean?


    Em Violator, as músicas passam por temas divergentes entre si, quando postas assim, lado a lado, vemos que elas se complementam mais do que se anulam em seus desencontros. O mesmo acontece no nível breve de uma única canção, quer seja verso a verso ou em sua melodia.
Talvez seja isso uma das maiores marcas do disco, que não somente possui sons inesquecíveis e belíssimos, mas também trata de temas subjetivos, evidentemente, como a insegurança e a culpa, de forma compreensiva. Depeche Mode indubitavelmente alçou notáveis níveis em seu sétimo álbum.
    Do mesmo modo, os singles são uma excelente porta de entrada tanto para o disco, quanto para a banda, pois vemos a maturação e evolução desde as obras anteriores. Icônico e idílico em si, o 
Violator foi a assinatura de um trabalho limado, mas que não se desconecta do alvo e objetivo popular .

#VamosPecar

 

 

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