Os singles de Trator, de Lupe de Lupe

segunda-feira, maio 17, 2021

“Tem que acreditar, é o que eu falo, tem que acreditar. Um dia cê chega lá” - Vitor Brauer em Eu já Venci(Ao vivo, 2015). 

Aviso: Faz tempo que não escrevo, então tá ruim mesmo. Tenho total ciência disso, mas foi só para não perder a oportunidade. 

A banda mineira Lupe de Lupe está para lançar um álbum no dia 18 maio de 2021, quase três anos depois do lançamento de Vocação (2018). O disco foi intitulado Trator e cinco singles (o link leva para uma playlist no Spotify)foram lançados entre março e abril para apresentar o novo trabalho do barulhento e visceral grupo. E é quanto aos singles que me proponho a apresentar impressões e comentários no texto que se segue.

Os singles foram lançados quinzenalmente, começando por Goiânia em 1 de março. Daí vieram, respectivamente, Cabo Frio, Fortaleza, Resplendor e Coromandel. Lembro-me de que a partir do lançamento da segunda música já tinha notado o padrão e “conceito” de Trator, o que foi confirmado com a terceira e as demais: todas as faixas seriam nomes de cidades.

Ainda, acho um veículo um tanto inusitado e inadequado para uma tour pelo país, no entanto propício e adequado à Lupe de Lupe e seu estilo, por vezes, agressivo. Antes de chegar propriamente ao tema desse texto, relatarei brevemente a minha experiência com a banda, experiência iniciada em 2018, mais especificamente dia 17 de maio de 2018, “uma quinta-feira comum” e meu aniversário.  

Contextualizando, em 2018, o primeiro single lançado para o álbum Vocação foi O Brasil Quer Mais. Aquilo foi a coisa mais diferente que eu já tinha ouvido até então, me encantei de cara. Não esperava uma pedrada daquela nos ouvidos, do tipo que deixa sangrando mesmo. O zunido ainda persiste. Imagina eu, contente em minha bolha ideológica, ter que ouvir que parte da culpa do cenário assombroso que se desenhava naquele ano era também meu e dos meus pares; foi sublime. Se implicar no problema, fazer a tal da autocrítica. Vale conferir essa música (antes ou depois de ouvir as novas), porque - e explicarei adiante - há vestígios do passado nesse presente, por exemplo: a capa do single de O Brasil Quer Mais são dois trabalhadores em um trator. Não descarto a possibilidade de mero acaso, contudo no segundo ato da mencionada canção, chamado A Punição, a história ali relatada parece continuar em Goiânia.

Enfim, partimos para conhecer essas cinco cidades de uma vez. No entanto, a lista não seguirá a ordem de lançamento, mas sim minha ordem de preferência; Mais um último aviso: Sei que eu poderia apresentar mais a banda, as faixas mais conhecidas, os integrantes, aquela estrutura tradicional de texto informativo, mas não o farei. Comentarei o que achar necessário ao longo do texto e que vocês descubram o resto aí na internet.  

CABO FRIO

O baixista do grupo, Renan, mais uma vez encanta com sua poética simples, por vezes até juvenil, completamente justificável em Cabo Frio, como se verá.  

Que fique claro, porém, que essas qualificações não são pejorativas. Digo isso por conta de Gaúcha, maior sucesso da banda, do grande álbum Quarup (2014). O número de visualizações e reproduções dessa é superior quando comparado a outras músicas da banda. A melodia devagar e ritmo suave no começo, envoltos pelas letras e palavras de amor inocente e bobinho tinham tudo para tornar Gaúcha de fato o sucesso que foi.

Voltando a Cabo Frio, segundo Renan, o lugar é uma utopia, onde “todos os amores vão”, não importando a condição, ou seja, “nem ficar rico/ tão pouco ser da cena”. Em tempos tão performáticos quanto o atual, de status e stories, um lugar livre de tais coisas é de fato almejável. O baixista e compositor fala sobre as aventuras vivenciadas ali na adolescência com um sentimento único de nostalgia positiva. Como era de se esperar, o baixo que segue na canção é o excelente destaque, evidentemente, e, para os mais atentos, tem até alusão à Legião Urbana, a qual de fato era a banda de jovem dos anos 90 em “E é claro que o sol…”.

GOIÂNIA

Saindo dessa bela atmosfera litorânea, adolescente e emocionada, paramos em Goiânia, na qual, pelo contrário, é um distopia de “tiro, abuso e morte na encruzilhada”. O começo repetitivo e aparentemente despretensioso de Goiânia, bem como a humorada e difundida expressão “passar pano para alguém” fazem a música soar tranquila e inofensiva.

Vitor Brauer, contudo, entrega uma crítica feroz e caoticamente enérgica à cidade, da qual foram geradas tantas duplas, que espalharam sua palavra por meio de seu templo, a Villa Mix. Dupla também é a vida das duplas, pois “de um lado os hits de sucesso/do outro a raiz do retrocesso e esse furo”, o que pode nos levar a pensar, por exemplo, em Rodolffo, cantor sertanejo e ex-BBB. Sabemos sua canção, Batom de Cereja, ter alcançado um sucesso estrondoso, mas também dos comentários “chucros” feitos durante seu tempo no programa.

diss, “literalmente traduzida por canção de insatisfação”, pode ser sobre ele ou quaisquer duplas sertanejas. Personalizar é menos importante. É pertinente notar, por outro lado, como a “dupla cancelada” também seria possível de servir ao casal Salma e Mac, respectivamente, cantora e guitarrista da banda indie goiana Carne Doce. Mais poderia ser dito acerca dessa treta, mas eu não sou bem informado, nem fofoqueiro. Ressalto somente que, quando a música foi lançada no Youtube e as especulações sobre quem seria a tal dupla começaram, muitos comentários mencionando a dona de Amor Distrai (Durin) e Artemísia apareceram e, horas depois, sumiram. Para evitar confusão, claro. Eu vi, mas prefiro que tudo passe pelo verniz de uma suposição. 

Também, eu disse que Goiânia parecia ampliar um assunto discutido em O Brasil Quer Mais: 

Outro dia um músico que foi exposto no facebook
    Me procurou pra saber porque eu disse pra não gravarem com ele
    Se eu conheço a menina, se eu conhecia ele
    Se eu sou um justiceiro ou sei lá o que
    E resolveu me ameaçar e me ameaçar pra que?

E suponho, juntando por A mais B somente, que o músico em questão está diretamente relacionado ao “cara que você defendeu”, você, nesse caso, a mencionada dupla. 

Todavia, é sempre lícito lembrar do caráter universal do fazer poético/musical, não só delimitado a uma determinada circunstância, mas também a situações futuras e fora do nosso conhecimento atual, principalmente sabendo que “nada se perde/ tudo se transforma/ menos em você/ Goiânia”.

Imagem disponível em: <https://www.botequimdeideias.com.br/flogase/lupe-de-lupe-ao-vivo-no-showlivre/>

COROMANDEL

Deixando a capital de Goiás para trás e indo ao triângulo mineiro, chegamos em Coromandel. O alto astral volta aqui, prometo. Inclusive, isso é Lupe de Lupe, de acordo com minha experiência: ternura, amor, ataque, caos e energia alternadamente justapostas, uma fusão de sensações. 

Em Coró, Cícero, baterista, com participação de Fernando Motta, outro artista da assim chamada Geração Perdida de Minas Gerais, imprime redenção e festa nessa canção. Tem festa melhor do que a de casamento? Sim, mas essa descrita parece igualmente boa. 

A alegria transmitida nessa música, honestamente, me livrou de pensamentos depressivos por uma semana, vejam o efeito! “Fiz merda demais/ Fiz merda sim/ Mas ninguém nasceu para ficar sozinho/ E eu voltei” me fez acreditar que a vida vale a pena ser vivida sim, ao contrário do que diz a rede social mais nojenta existente, o Twitter, e seus passarinhes. 

Por fim, o riff principal tem esse espírito meio rock adolescente dos anos 2000, que, em minha opinião, é perfeito para a abertura de um anime shounen. Só ficou o desejo de beber um gole de Coromandel, me perder e me achar lá. 

FORTALEZA

Não fosse Coromandel, essa seria minha terceira. A música é boa, ainda que fale de amor. Aproveito para explicar porque não gosto de canções de amor. É rápido: já tem muita, é um assunto batido e cria muita idealização, problemática na maioria das vezes. Logo, aquelas músicas que tratam do tal sentimento e me agradam certamente têm algo diferente. Esse é o caso de Fortaleza.

Esse amor terreno de Jonathan Tadeu, guitarrista, e ao mesmo tempo capaz de despertar um sonho agradável como lá descrito  me fizeram dar uma chance de que ainda existe forma de expressar o amor sem muita firula e outras coisas desagradáveis e desnecessárias. Em outras palavras, verdadeiro mas simples.

RESPLENDOR

Para fechar a viagem, Resplendor. Serei breve e a razão é simples, eu não entendo a música. Veja, mesmo que concorde ser sua parte musical, isto é, instrumental, muito bonita e agradável, as reflexões e as imagens por meio da linguagem criadas pelo Gustavo Scholz, guitarrista, igualmente admiráveis e cativantes, a letra em seu conjunto não me diz algo que me toque e me faça chegar a uma conclusão satisfatória… Vai ver, claro, a intenção era essa experiência de versos rápidos e justapostos, porque eu apenas a senti, mas não a entendi. Mas isso sou eu.

    Bom, galera, estou com as expectativas altas para o Trator, a ser lançado daqui três dias (escrevo em 15/05), e essa turnê por diversas cidades terminando em Brasil Novo, nome de um munícipio sim, mas sinto que tem coisa mais aí nesse título. 

Encerrando pelo propósito, quanto aos singles, meu conceito final é que todos são bons e a Lupe de Lupe ofereceu-nos mais uma vez obras estimáveis. Dito isso, é válido conferir também, tanto se gostarem quanto se não, os álbuns anteriores e outras músicas para além dessas. 

P.S.: Eu, Gabriel, tenho alguns textos já rascunhados e algumas ideias. Em breve, tentarei trazê-los. Tem sobre poesia, literatura, música, política e outros surtos. Abraço!

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