Lula, o melhor e mais autêntico do novo rock nacional
sexta-feira, junho 11, 2021
Capa por Suzanne Horta. Disponível em: <https://lupedelupe.bandcamp.com/album/lula-2>
Caralho bicho, cês são louco de fazer... mas tá certo, tem que fazer mesmo, foda-se, vocês já fizeram tanta coisa aí que... sei lá... a galera comenta, acho que tem mesmo que meter esse nome e... se vocês não fizerem ninguém vai fazer então manda ver... do caralho.
- Caetés ft. Fernando Dotta, Lupe de Lupe (2021).
Ex-Trator/Introdução
O interlúdio de 36 segundos na voz de Fernando Dotta, do selo Balaclava Records, explica a razão de o texto anterior estar ultrapassado. Isso porque o disco vinha sendo divulgado com o nome de Trator, e chocou tanto a nós, Rayane* e Gabriel, quanto aos demais fãs da banda Lupe de Lupe, uma vez que o álbum foi revelado com seu nome original, Lula; um verdadeiro plot-twist.
Para começar, Lula conta com 16 faixas, sendo três faixas compostas (logo, cantadas) por cada um dos cinco integrantes mais o interlúdio e totalizando uma hora de extensão e duração.
Muitas coisas mais podem ser ditas acerca do álbum, coisas essas explicadas pela própria banda (recomendamos fortemente a leitura) e percebidas por nós durante a nossa sessão no Spotify no lançamento inclusive. Um exemplo: o fato muito peculiar de as músicas serem mais - tal qual o ex-presidente - democráticas e pop. Pop pois as músicas são mais curtas e influenciadas por ritmos brasileiros, de forró a reggae. Ou ainda, nas palavras da própria banda, "palatáveis", ou seja, o grupo se reinventa e quiçá “amadurece” seu som, mas sem perder a vívida essência.
Ademais, o nome do álbum se justifica porque há, em algumas faixas, áudios aleatórios de Luiz Inácio ao fim. A capa do álbum mantém o trator - esperamos que não tenha sido superfaturado-, apesar da (re)renomeação. Mais, cidades de todas as regiões do país foram escolhidas, tornando o álbum uma espécie de guia turístico - ou uma aula de geografia, se você pesquisar cada cidade -, bem como conectando toda essa terra continental por meio da música.
Assim sendo, Lula é o Norvana dos sons da banda de BH, já que une todas as tribos, ou seja, é um ótimo pontapé inicial para ir além de Gaúcha e Eu Já Venci. Lembramos que aqui só serão tratadas as músicas que não foram singles - se quiser saber das impressões sobre eles, de novo o link. Finalmente, partamos nessa viagem e conheçamos o Brasil, ou melhor, Lula(eis o link para ouvir o álbum completo no YouTube, mas também está disponível em outras plataformas como Spotify, Bandcamp).
PELOTAS
G: Pelotas traz, no ritmo do baião, o que a música brasileira contemporânea tem de melhor: a romantização de um relacionamento abusivo. Brincadeiras à parte, a composição de Renan Benini, baixista da banda, conta um causo muito alegre e envolvente do eu-poético e suas aventuras amorosas nas festas de baião.
Com todo esse cenário e propósito, é impossível não querer dançar ouvindo, que ao permitir a entrada de outro ritmo popular nos instrumentos a torna tão contagiante. Também, não se imaginar naquela situação é difícil, já que os primeiros versos descrevem o começo da conquista e do puxar pra dançar, “atarracados” e “arroxados” com uma imageria belíssima:
Danço girando igual roleta de cassino/ (...) / Só no embalo até você se apaixonar / Te levo aos céus, ver estrelas caindo / Faço um pedido só pra ver você sorrindo / Te rodo até você podеr se aconchegar, oh
Até que vem o cativante refrão sobre a palavra da amada ser ordem, além da mudança de personalidade e hábitos que o sujeito faz “pra ser o seu amante”. As repetições do refrão tornam a música ainda mais atraente à dança.
Ao fim da faixa, temos a primeira delas que contém um áudio do ex-presidente operário: E depois eu deveria me mancar e parar de falar, mas eu não paro de falar. Tal fala reforça as ideias das linhas iniciais sobre a tensão entre ser um “enxerido despojado” e não ser o “tímido calado”.
SOROCABA
R: E ele voltou - talvez não seja a música normal que vai te agradar. Vitor Brauer entrega aquilo que a banda tem de mais legal, na minha opinião: sua voz, que não agrada a todos, e as guitarras ora melódicas, ora caóticas.
A priori, Sorocaba parece tratar de um antigo relacionamento, entretanto, vai se desdobrando sobre ocorridos, verdadeiros ou não, na vida do compositor rodando pelo Brasil. A música carrega uma mensagem de que, apesar de todas as situações, o importante é ser livre.
A verdade é que eu virei um chato / Mas é porque eu acho / Que às vezes por causa de alguma coisa / A gente tem que ser chato. Nessa onda de isenção - “Nem de direita, nem de esquerda.” -, vendem a ideia que não devemos reclamar do caos brasileiro. Muito pelo contrário, devemos reclamar daquilo que não nos satisfaz ou representa.
Pensando no momento político-social que estamos, a voz é aquilo que motiva a luta, sem a voz, Lula - tanto o álbum, quanto o político - não teria essa força.
Não vou deixar, não vou deixar
Não vou deixar e ver o pau quebrar
E não falar
E não cantar
SALVADOR
R: A música mais longa do álbum, com 5:07 - nada comparado a outras da banda, como Carnaval - é uma das minhas favoritas. A cadência lembra a de uma marchinha de carnaval, com um começo calmo mas alegre.
Já na letra, vemos a relação familiar, sugestivamente parece ser uma guarda compartilhada, mas o foco fica na felicidade em estar com a filha Cristina: "A vida na estrada é infeliz" / Cê me diz / Queria ver a filha / "Ela vai ser atriz de novela" / Espero que ela não tenha o seu nariz.
Eu acho muito bela a relação dos adultos com bebês, as expectativas e alegrias bobas apenas com a presença do novo morador desse planeta. É, talvez, a relação mais pura, afinal, um bebê não pode te oferecer nada em troca. Entretanto, o problema começa quando as expectativas e alegrias se tornam cobranças e pesos na vida dos filhos, como aparece ao final da música.
A transição entre alegre e calmo para desespero e sofrimento é muito sútil e rápida. É interessante notar como aquele momento de êxtase com a filha encobria uma relação que já era ou viria a se tornar problemática, as questões masculinas nas relações afetivas, casamento ou paternidade.
Toda desgraça na minha vida faz sentido
Eu não fui homem, só era masculino
É mais que justo pelo mal que fiz a minha Elis
Nem lamentei e Cristina foi embora
UBERLÂNDIA
R: Pode o baterista de uma banda ser um gênio? Cícero surpreende com suas composições no álbum: Coromandel, Maceió e Uberlândia. Essa contém frases paralelísticas e “intermusicalidade”.
A faixa é bem romântica, um amor de perdição causador do sofrimento no eu-lírico. Veja bem, imagine aqueles dias que não se levanta da cama, perde-se a fé no amor e outras tantas lamentações. Ainda, o ritmo não é dançante, como outras do álbum, mas ele serve bem para aquele batuque com o pé ao menos. Nota-se que, apesar da composição ser de um baterista, a bateria segue um padrão com algumas viradas, mas não encontraremos solos magníficos.
Amor perdido, é um amor perdido que nunca sai do meu pensamento.
Amor perdido, é um amor perdido que ainda causa mui sofrimento
Há dias na vida, que a gente pensa que não vai conseguir
Há dias na vida, que é bem melhor deixar de tudo e fugir
Impossível não notar a imitação com Não Creio em Mais Nada, canção de um dos maiores compositores românticos, Paulo Sérgio, nesses dois últimos versos. Uberlândia me passa a impressão de não termos controle do destino, assim esse desespero, de não controlar nem nosso futuro ou amor, que leva à vontade de desistência. Eu, Rayane, aposto que em algum momento, entre 2020 e 2021, você pensou em largar tudo para evitar dor de cabeça e frustração. Normal. Quase um sentimento patriótico brasileiro.
CONTAGEM
G: Das três letras de Jonathan Tadeu para o álbum, essa é, indubitavelmente, a mais reflexiva. Mas calma, não chega a ser triste, não só as guitarras arrastadas, o baixo sóbrio e a percussão a la samba clássico, mas também o canto e letra trazem o tom de melancolia e austeridade.
É tarefa árdua comentar essa faixa, precisamente por sua profunda síntese, Contagem é o que é, e pode ser mais. A história ali relatada trata de vizinhos, e um deles está decidido a sair de Contagem para melhorar de vida. O outro vizinho, por outro lado, está ciente de que isso não basta para melhorar.Veja-se na canção (a ênfase é minha):
Nos churrascos de domingo lá em casa
Você aparecia com os seus filhos
E me dizia que em breve tudo iria ficar bem
Quando vocês saíssem de Contagem
Mas sair de uma cidade não é nascer de novo
Eu juro que eu tentei te avisar
Eu juro que eu tentei te avisar
Meu vizinho sеm nome
É certo que você conhece alguém que acredita nessa mudança profunda do ser, como se nascesse de novo, por meio da mudança territorial. Considero e partilho da opinião da persona que isso não basta para mudar também.
Na saída, temos mais um áudio de Luiz Inácio: Qual é a grande preocupação que eu tenho? É você permitir que a máquina te conquiste... sabe, o meu medo é esse, é que a máquina conquiste a gente. E provoco vocês: Qual a relação entre essa sentença e a narração apresentada?
PORTO VELHO
R: “Porque você é pó, e ao pó voltará." Gênesis 3:19. Confesso que foi um processo gostar dessa música, em razão da sua difícil interpretação, talvez por conta dos versos curtos. Todavia, sintetiza os desesperos e questionamentos humanos, do nascimento ao obliterar.
Destaco, também, o carácter religioso de Porto Velho, que está bem relacionado às dúvidas existenciais da humanidade. “Pois pai, Deus pai” aparenta ser uma súplica desesperada - vocalmente, também - a Deus por respostas. Outrossim, a conclusão: somos banais, aos poucos deixamos de existir, mesmo sem respostas. É válido lembrar que a presença da religião nas letras da banda é comum, principalmente em Vocação.
MACEIÓ
G: Maceió me divide. Ao mesmo tempo, acho uma experiência muitíssimo interessante pela evidente influência do reggae, o que causa uma musicalidade, via ritmo e melodia, massa, mas a letra me cativa pouco. E isso é curioso, porque a letra também é dúbia e recorre a antíteses - mas clichês ao extremo, como o amor enquanto prisão, do sonho que não se deve acordar, a amada que domina os sentimentos etc. De qualquer modo, “bicho… vá à lua!”.
SANTA MARIA
A canção que mais alegrou meu coração na primeira vez que ouvi. Obrigada, Jonathan Tadeu, por essa música leve, com letra juvenil.
Santa Maria fala sobre um grupo de amigos em situações simples e cotidianas, como festas e mensagens no whatsapp. Mas é na simplicidade da faixa - tal qual a simplicidade das amizades - que está o encanto.
Diferente de Contagem, aqui os personagens querem sair da cidade, tratando isso como algo natural. Assim, a nostalgia da cidade e das amizades se misturaram no coração dessa “gangue”. Isso é tão Lupe de Lupe, pensando que permaneceram Jonathan e Vitor em Minas Gerais.
No solo final, que dura pouco mais de 2 minutos - a meu ver, o mais bonito, pois deixa essa reflexão sobre a amizade. Só penso que faltaram palavras de Lula para encerrar com mais força.
NATAL
Antes de ouvir essa, recomendo ouvir Timidez, do grupo Cavalo de Pau, porque eu, Gabriel, tenho a hipótese maluca de que há uma parte igual da melodia. No mais, a vibe transmitida por Natal é massa demais, a melhor, sem mais. Que nem Coromandel, é uma música para quem quer ser feliz com alguém, “mesmo sem ser perfeito”. Faltam músicas sobre relacionamentos felizes nesse país, essa é a grande verdade.
Nós percebemos nessa faixa a metáfora ou a tentativa de aproximar a vida cotidiana de um casal a atitudes políticas, como se a amada e o país fossem uma entidade só. Evidência disso pode ser vista em: conheço seus problemas / conheço seus sentimentos e Pois a mudança só vai vir / Se a gente se levantar. Como se a mensagem nas entrelinhas fosse a de que devemos entender as imperfeições de nossos campos afetivos para nos tornarmos não só indivíduos melhores, mas também seres sociais melhores.
Para mim, Rayane, ela é a melhor do álbum e digo o porquê: Forró e rock, nessa mescla rítmica, é algo completamente novo. A canção é animada de verdade; consigo imaginar pares dançando em uma noite de festa.
BRASIL NOVO
G: Encerrando o álbum, Brasil Novo (PA) faz o jogo de palavras óbvio com o título. O “exílio”, aparentemente, torna intensas as composições sobre a terra natal, basta lembrarmos do clássico escolar Canção do Exílio (1848), poema de Gonçalves Dias. Embora Gustavo Scholz não esteja exilado, só com a filha na Austrália, a comparação pode ser feita haja vista onde gravou seus vocais e guitarras.
O tom geral de Brasil Novo é o da esperança tímida, segundo noto. O cenário de imagens trágicas e de tristeza é contraposto por imediatos versos otimistas e de luta. Honestamente, sinto vontade de chorar com essa música, pois me faz atento da realidade em que estamos inseridos, porém que há chance de mudança por meio da insistente resistência.
Essa bela e tocante música encerra bem Lula, novo álbum da banda mineira Lupe de Lupe, tal qual - e com a mesma mensagem - Vocação (2018) encerra-se com Lâmina Cega: não perca a esperança, venceremos. O solo de guitarra final é incrível e sensível, acompanhado de batuque e pandeiro à moda brasileira. Então, o último áudio: “Se havia alguém no Brasil que duvidasse que um torneiro mecânico, saído de uma fábrica, chegasse à presidência da república, 2002 provou exatamente o contrário" - Luiz Inácio ‘Lula’ da Silva em seu discurso de posse, em 01/01/2003. Aplausos e fim.
Considerações Finais
Nossa conclusão é que esse álbum entrega uma renovada Lupe de Lupe, uma experiência diferente de todos os demais álbuns anteriores da banda. Por fim, dizemos que não brilha só uma estrela, mas cinco. Poderia ser a nota, mas nos referimos aos rapazes e seu trabalho nesse novo lançamento. Um sucesso e, sem dúvida, um dos destaques da música independente brasileira nesse ano. Foda.
Os respectivos Top 5 (incluindo os singles).
Gabriel: Natal, Cabo Frio, Coromandel, Brasil Novo e Contagem.
Rayane: Natal, Goiânia, Uberlândia, Salvador e Santa Maria (mas eu sou indecisa, logo, poderia ser qualquer uma, exceto Maceió).
*Rayane é estudante de Letras na Universidade de São Paulo (USP). Mais, é uma grande interessada em música brasileira (mas não só, não só) e literatura, além de uma excelente e estimada ex-aluna.
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