Radiohead é aquela banda inglesa, com mais de 30 anos de carreira e nove álbuns de estúdio e, que mesmo assim é mais conhecida por Creep, seu primeiro single. Sua música é, por vezes, definida como “alternativa” e é cultuada sobretudo por millennials. Além disso, quanto a nós, Larissa e Gabriel, a banda é um ponto em comum, o que permitiu muito da nossa aproximação e amizade.
Seguindo, a experimentação é uma marca muito positiva do grupo e que permite que seu som soe sempre excêntrico Apesar da consistência sonora nos três primeiros álbuns (Pablo Honey, The Bends e Ok Computer) é a partir do Kid A, nosso homenageado em virtude do vigésimo aniversário, que essa característica foi elevada à enésima potência, definindo o som da banda desde então.
Nossa experiência:
Eu conheci Radiohead na época em que a MTV ainda era o canal 32 da TV aberta. Eu assistia diariamente, assim como o Gabriel, que, no entanto, foi introduzido à banda um tanto mais tarde pelo seu amigo Caldeira, com quem foi ao show em 2018. Aliás, nós dois fomos ao show, mas não nos conhecíamos, estávamos em lugares diferentes no local do evento. Uma terrível coincidência!
O Álbum:
Kid A, o nome do primeiro ser clonado, a primeira das crianças, que talvez tenha inspirado a Grimes e Elon Musk a escolherem o nome de sua filha, X Æ A-12.
Brincadeiras à parte, sabe-se que após o lançamento e ingente sucesso de Ok Computer (1997), a banda passou por maus bocados. Cada um dos membros tinha ideias para o aguardadíssimo sucessor da obra de arte do grupo britânico. Mesmo com as incertezas no “como fazer”, decidiram por uma mudança severa na musicalidade, abandonando as três guitarras (típicas dos álbuns anteriores) e inovando com instrumentos de música eletrônica.
O que parecia um suicídio, quer dizer, uma transformação radical que poderia levar muitos fãs, entusiastas de Radiohead e críticos musicais a largar a banda, foi, na verdade, um acerto. Foi então que Kid A recebeu o Grammy de Melhor Álbum Alternativo e uma indicação para Álbum do Ano, além de suas músicas e o disco em si ficarem entre os mais ouvidos e prestigiados de 2000.
A estratégia comercial foi ser anticomercial, quer dizer, o disco não contou com nenhum single lançado previamente, apenas alguns trechos curtíssimos em intervalos da MTV. A curiosidade atiçada contribuiu para seu sucesso.
A capa, igualmente, possui um contexto interessante, somado ao que o próprio artista Stanley Donwood afirmou, ou seja, ter sido inspirado pela violência da guerra do Kosovo e os sentimentos que esta lhe causou. Talvez ousemos dizer que a virada do milênio tenha influenciado em algo também, o pessimismo quanto ao “progresso” da sociedade emana não só das músicas, mas também de sua arte visual.
Nas palavras de Stanley: “A ideia assombrosa das montanhas era que elas fossem essas paisagens de poder, a ideia de torres e pirâmides. Era sobre um certo tipo de poder cataclísmico existente na paisagem”. Inclui-se no processo artístico o uso de facas (e palitos) para as pontas agudas.
Para mais informações pertinentes recomendamos (infelizmente só em inglês): KID A, The Greatest Left Turn In Music History.
Impressões sobre o Kid A:
Ambos concordamos que “Everything in Its Right Place” abre muitíssimo bem o álbum e dá a tônica (ou não, uma vez que uma das técnicas utilizadas nas composições foi a ausência de tons definidos) do que vai vir a seguir na obra e até no álbum seguinte, o Amnesiac (2001). O caráter “dadaísta” já na primeira música antecipa a quem ouve que estará diante de algo díspar.
Ainda, lembramos-lhes de uma curiosidade não tão relevante: The National Anthem é o nome do primeiríssimo episódio de Black Mirror, mas a música em si será abordada posteriormente pela Larissa com minúcia e atenção. Outra digna de menção é How to Disappear Completely, cujo nome faz referência a um livro que leva quase o mesmo título, e geralmente faz parte das playlists mais tristes e depressivas imagináveis, bem como é recorrente no Tumblr.
Músicas que gostamos e destacamos
Gabriel:
Mesmo que toda a obra apresente essa proposta diferente dos trabalhos anteriores, a volta das guitarras em Optimistic é bela, tornando singular até o que lhes é típico, embora o contexto/plano de fundo seja de fato único. Da mesma forma, o tema apresenta uma contradição atrativa: O tal otimista, aqui tratado por “essezinho aí”, está cercado por um ambiente horrível.
Essezinho aí consegue enxergar todos os problemas, causados principalmente pelo “mercado”, e mantém-se indiferente. A música é riquíssima, com referências a Nietzsche e Orwell por exemplo, porém nosso tempo é parco para dar conta de tal infelizmente, por isso recomendo ouvi-la muitas e muitas vezes para retirar o sabor “feio-mas-bonito” de cada verso arranjado em seu todo.
Idioteque: Sendo sincero, essa música é um dos retratos mais fidedignos de toda a aura do álbum. A arte da capa de aspecto sublime, isto é, assustador e belo ou escuro e claro ao mesmo tempo, retrata grandes montanhas de gelo em um cenário quase distópico e no trecho:
Ice Age coming
Let me hear both sides
[...]
Throw it in the fire
O tom paradoxal e angustiado de versos repetidos cada vez mais altos revela o geist, o espírito, do fim dos anos 90/começo dos 2000 quanto às mudanças climáticas do mundo e suas perspectivas (alarmista e negacionista). Por fim, a sonoridade caótica, “monótona” e computadorizada (“faster Jonny!”) usando samples das primeiras músicas eletrônicas situa muito bem essa energia de desespero que a música cultiva e traz, como que de volta às paranoias do Ok Computer. “Isso realmente está acontecendo!”
(por Ron Ginzburg, In: Pinterest)
Larissa:
The National Anthem: foi apenas enquanto pensava no que escrever sobre essa música que notei que, assim como ocorreu com Motion Picture Soundtrack, também passei a admirá-la mais ouvindo uma versão ao vivo. Eu havia recentemente descoberto como baixar vídeos do YouTube e minha família havia adquirido uma televisão com entrada USB. Acredito que lendo essas duas informações, você que está lendo, já deve ter imaginado que eu baixava todo tipo de vídeo musical, colocava em um pendrive e o conectava à televisão, mas caso você não tenha pensado nisso, confirmo que era o que eu fazia.
Existe um concerto da banda, no Rock Am Ring (2001), que muito me agradava. Não sei se continua sendo o caso, porque já vi vários outros depois desse e há muito não o revisito. Inclusive, alguns anos depois, em uma visita a uma livraria de São Paulo, acabei comprando um DVD com a gravação desse show.
Mas bem, o que acontece é que, na época, a música que abriu o show foi The National Anthem, o que me fez prestar mais atenção nela. Não é que eu não gostasse dela antes, mas sem dúvida gostava menos do que hoje em dia.
Motion Picture Soundtrack é a faixa que encerra o Kid A e, por certo tempo, passou por mim, despercebida. O que mudou isso, foi uma apresentação de 1995, gravada em uma rádio holandesa. A música, à época, levava o nome de Crazy (My Beautiful Angel) e foi apresentada aos ouvintes em uma versão acústica.
Como boa fã de demos e versões alternativas que sou, quando me deparei com essa, tive que escutar imediatamente e, como resultado, passei a ouvi-la religiosamente. Além da melodia, que é decerto diferente daquela do álbum, a letra também o é. Essas pequenas diferenças me fizeram revisitar Motion Picture Soundtrack diversas vezes, cada vez a admirando mais a partir da comparação com Crazy (My Beautiful Angel).
“I’ll see you in the next life…”