MINHA CURADORIA DE VOCALOID
domingo, agosto 02, 2020Eu, sob a vigilância da cara Larissa (conferir o último texto dela é uma obrigação), relato-lhes muito brevemente minha experiência com Vocaloid. Não pretendo gastar tempo e palavras explicando minuciosamente o que são Vocaloids. No entanto, grosso modo e para fins de compreender alguns elementos desse texto, são bancos de vozes representados por personagens, os quais não necessariamente possuem uma personalidade própria.
Isso é relevante porque explica o motivo da produção com Vocaloid ser tão vasta e numerosa, senão incalculável, extremamente democratizada. Esses “bonecos” são então preenchidos pela música que cantam naquele instante e os resultados são constantemente surpreendentes e novos. Dessa forma, aqui estarão presentes recomendações curadas por mim.
Voltando à minha vivência, me foi apresentado por um grande amigo chamado Marcos Vinícius Trevisan Tavares, que também me ajudou um tanto na escrita, no longínquo ano de 2011. Desde então, venho consumindo Vocaloid principalmente por mediação dele. Mas ainda assim, intitulo este texto como “Minha curadoria” porque recomendaríamos músicas diferentes. Então, selecionei somente três produtores, são eles: Mothy (Akuno-P), Utsu-P e Pinocchio-P.
MOTHY
Começando, Mothy foi o primeiro recomendado pelo bravo amigo. Iniciou-me com uma parte da saga Evillious Chronicles (EC), a Seven Deadly Sins. Não consigo me recordar qual música exatamente foi a primeira, mas acredito que tenha sido (e já começo a recomendação por ela) Madness of Duke Venomania (2010), cantada por Gakupo, um vocaloid um tanto esquecido e que trata do pecado da Luxúria. Seu “conceito” pode parecer um pouco inferior quando comparado às músicas da Gula ou da Ira, por exemplo, mas vale conferir mesmo assim.
Voltando à EC, ressalto ser uma história longa e complicada que durou 10 anos, sendo encerrada no ano passado. Mais de 70 músicas compõem a saga, ou seja os gêneros das músicas são secundários ao “conceito”, ou seja a narrativa é o fim maior. A cronologia é confusa e não corresponde às suas ordens de lançamento.
Contudo, para iniciar um pouco do que promete a história sugiro uma música. Chrono Story (2011), cantada por Megurine Luka, tem posição central na história pois e inicia a parte dos pecados acima mencionada e a própria jornada dessa personagem importantíssima (a saber, Elluka Clockworker), além de encerrar o começo, do pecado original.
UTSU-P
O melhor modo de definir ou apresentar Utsu-P é lidando diretamente com suas obras, porque apesar de manter consistência no gênero metal, ainda encontramos outras influências aqui e ali, isto é, não há pureza, ainda mais com o último álbum (Renaissance, 2019), perfeito e adequado ao nosso tempo (experimentos com eletrônica, enfim).
Para iniciar, recomendo a minha favorita: Mikusabbath (Algorithm, 2014). Essa pedrada, para não chamar somente de música, confronta a própria produção musical com Vocaloid, o J-POP e a cultura otaku em geral. Não há nada de especial nem significado nisso tudo, como a vida...
Outra é There’s no Disorder in Train Schedule (Moksha, 2013). Cantada pela GUMI, Utsu-P nos faz refletir sobre a sociedade e, em algum nível, como fomos corrompidos tanto pelos valores de produtividade ou tanto pela moral da positividade, revelando a tal “apatia metropolitana”... NÃO RIA!
Por fim, Adult’s Toy (PTSD, 2016) conta com os vocais de Kagamine Rin, a música em si é incrível, porém a razão de tê-la colocado aqui é outra: os primeiros segundos nos fazem lembrar de algo, um tanto familiar… Não direi o que é, mas sim, é isso mesmo.
PINOCCHIO-P
SLoWMoTIoN (2014) é o grande destaque desse produtor. A razão de tal fama pode ser explicada pela leveza da melodia, no entanto com um conteúdo altamente reflexivo, uma aguda metáfora. Quem diria que uma febre abre espaço para tanto pensamento existencial?
A próxima, Ultimate Senpai (2019), está aqui pois é, potencialmente, minha favorita; uma dose de autoestima e ser chamado de “senpai” por Hatsune Miku é tudo que precisamos de vez em quando. Aliás, por falar nela, ao contrário de Utsu-P que varia com outras vocaloids eventualmente, Pinocchio tem uma preferência clara.
A terceira e última, Nobody Makes Sense (2017), revela o que eu gosto tanto nesse artista, sua arte. Os vídeos musicais (MV), as canções (notem que ele próprio canta alguns versos) e seus conteúdos são orgânicos (por exemplo, no álbum Human). Pinocchio mostra como ele, mais uma vez, consegue ser sensível com o seu fazer musical, mesmo em um tempo de tanta imersão com a tecnologia.
MENÇÕES HONROSAS
Antes do fim, listo outras músicas interessantes e variadas (variedade essa que Mikusabbath critica), as quais podem agradar diversos tipos de público, desde o mais “devasso” (Ifuudoudou…) ao mais “família” (Popipo), são elas:
- Soap Lagoon e Ergonomic Hero, do produtor Masa Works DESIGEN
- Sand Planet, do HACHI, que é a música (belíssima) oficial da comemoração de 10 anos da Hatsune Miku;
- Retomando o conceito de histórias distribuídas em várias músicas temos a Bad End Night Series (2012), vale a pena conferir. Ao contrário das 70 da EC, essa contém só 4 músicas;
- Embora de autoria da Grimes, há uma versão interessantíssima de Oblivion (2012) com a Vocaloid Miku. Mostra um outro fenômeno do nicho de usar, como instrumento, para cantar músicas de artistas reais (o que é real?);
- E por fim, Party x Party (2014), uma daquelas que reúne diversos personagens vocaloids em uma narrativa musical.
Para encerrar, digo que esse texto teve o intuito de ser simples e realmente servir como uma apresentação mediada e curada. As músicas aqui mencionadas não cobrem a infinidade de gêneros, estilos e meios de se produzir com Vocaloid, mas pode ser um começo para uma imersão maior, inclusive em outros produtores, outras músicas, etc.
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