Greta: Sobre o casamento da Filologia e de Gabriela Guimarães
sexta-feira, agosto 13, 2021vitaque cum gemitu fugit indignata sub umbras
(Virgílio em Eneida, XI, 831).
Marciano Capella, no quinto século da era comum, nos deixou uma grande poesia alegórica sobre casamento entre a Filologia e Mercúrio (o Hermes romano). A metáfora dentro dos versos é que o imortal mensageiro divino, a comunicação entre pessoas e deuses, ama essa moça mortal, representação de todo o conhecimento humano. Eu, por outro lado, serei igualmente metafórico e mais pretensioso neste texto. A pretensão que somente a modernidade permite: elimino o deus da história e proponho um casamento homossexual. Declaro Gabriela e a Filologia casadas.
A primeira das noivas, além de uma cara amiga, é uma poetisa (poesia aqui admite o sentido mais lato de produção literária, isto é, inclui a prosa). Você pode ver mais escritos dela em Homerapoesia (ou no tumblr). Sempre achei essa brincadeira com o nome de Homero muito sagaz, já que só pode existir uma Safo. Aqui, porém, tratarei apenas de sua primeira publicação em livro, Greta (link para comprar o volume).
Mas antes de falar do livro de Gabriela, falo da outra noiva. A partir de vagas lembranças das minhas leituras filológicas, menciono dois conceitos importantes: desejo e fragmento. Um precisa do outro, pois somos impelidos a completar um quebra-cabeças incompleto ou, quando nos deparamos com alguma ruína, alguns escombros, imaginamos como teria sido aquela construção inteira. Nessa (mal)dita cultura ocidental, lacunas nos impelem a paixões.
E por falar em paixão, é sempre lícito comentar a etimologia da palavra filologia: phílos + lógos, isto é, a afeição pelo discurso. Se você achou que lógos era só conhecimento, recomendo que lembre da palavra diálogo. Então desejo, afeição, amor, amizade, qualquer palavra nesse campo semântico vincula-se à filologia e seu “poder”: preencher a falta pela evocação da presença.
GRETA, o resultado das núpcias
Assim, voltemos ao livro, publicado pela editora Urutau em agosto de 2020. A orelha de Leila de Aguiar Costa traz um belo texto sobre Gabriela e o livro, no entanto, eu não estaria escrevendo isto não fosse o prefácio Corpo fechado contra, por Leonardo Gandolfi. Não entenda errado, não é como se eu fosse só falar do prefácio do livro, seria algo meio tonto, mas ele é central para entender o meu ponto. Afinal, é nele em que a palavra filologia apareceu e gatilhou as ideias vindouras.
Visto que fui latinista nos últimos anos, a “deriva etimológica” de descriptio - “abrir o que está hermeticamente fechado” (p.11) - evidentemente me cativou, mas não só isso. A própria filologia é meu objeto de pesquisa atualmente. Daí, retomando e sobrepondo várias teses de Hamacher, a filologia se explica pela ausência, pelo que não foi dito e as constantes tentativas de explicar essa falta. Logo, é infinita. É a linguagem da linguagem, a interpretação de um código pelo código, metalinguagem à enésima potência, tornando-se, portanto, adequada à literatura.
Sobre a obra, ela está dividida em quatro seções (Cripta, Coro Phantasmagoria, Ao redor da mesa, Ariel a teus pés). Comentarei todas, mas demorarei na minha favorita, Coro Phantasmagoria. Aprofundemo-nos nessa gruta finalmente.
CRIPTA
Essa primeira seção conta com 6 poemas e dentre eles destaco o segundo, “A descriptio do espaço”, porque ele evoca uma magia repleta de experiência, nostalgia sensível por excelência. Diria eu que para os seres abjetos nascidos na metrópole, o diálogo é menos intenso, mas não impossível. As imagens lá postas: O misticismo que há na vida simples dos antepassados, lembranças infantis que subsistem em nós, netas e netos, ainda que hoje elas só possam ser acessadas por meio da memória. Também porque pude lê-lo antes de sua publicação de fato.
Encerrando, o último poema, “Como uma haste fixada nos chãos”, registra poeticamente a esperança da semana anterior de encontrar milhares de pessoas unidas contra uma única seguida da dor e da amargura que viria no dia 27 de outubro de 2018 - o dia em que foi consumada a calamidade civilizatória e social que o Brasil viria a entrar. Dia 28, recordo-me de um dia cinza, muito cinza, em que era quase impossível pensar em contra-atacar, seguíamos apenas cantarolando que a espada que luta contra o mal morre com a lâmina cega.
CORO PHANTASMAGORIA
Os primeiros poemas dessa parte já explicitam a relação com a escrita, que é um possível registro da passagem efêmera da existência. Aqui fica demonstrada a filologia que mencionei acima.
Antes, porém, destaco ser a palavra fantasma relativamente próxima à fantasia. O sufixo grego [-ma] carrega sentido de produto, parte de algo maior. Assim sendo, nossa relação com fantasmas é resultado de nossa fantasia, que, também em grego, pode significar aparição, manifestação.
Seguindo, o trabalho do filólogo pode ser explicado, grosso modo, nessa lida com quem já morreu e a interpretação do que o agora morto disse antes de morrer, tornar manifesto e aparente seu discurso. Apropriando-me dos versos de Gabriela, diria que o filólogo é:
“O porta voz de um fantasma
publica o próprio corpo
pulsão da escrita
da morte” (2020, p. 27)
Embora eu saiba que aqui, a autora claramente se refere ao trabalho de poeta. Contudo, ouso aproximar ambas as coisas, filologia e poesia, já que elas realizam tarefas discursivas e imaginativas, isto é, por meio das letras, criar imagens que aproximam seu interlocutor de um significado anterior, invocar pela evocação. Não consigo descrever algo mais poético do que a filologia.
Adiante, mais um poema que falará do caráter fragmentário - ou ausente - do discurso:
“A primeira vez que vi um papiro
estava vazio.
É fatal não reconhecer,
não espere que alguém venha aqui e te abrace” (p. 29)
Por pouco, esse não é o meu favorito. O poder existente nesse último verso é sublime. Não arrisco em compartilhar inteiramente a minha interpretação, posso me expor demais, mas fazer com que a existência e a vida sejam vazias pela falta de outrem é um desperdício, por isso temos que contribuir nesse mundo da melhor maneira possível, para que não seja em vão e, quando fantasmas nos tornarmos, que nossos discursos continuem inspirando.
Segue então meu favorito, “Tentava dizer joana d’arc”. Cada palavra ali, cada verso, por mais objetivo que fosse, senti que falava comigo, sujeito; os versos finais (p. 31): “ele acabará, o mundo acabará. / a sua cartografia, essa relíquia entregue aos sóis / e aos invernos, não servirá de nada”.
Além disso, em I (daí começa a sequência numerada) os versos “Séc VII / se estabelece a medida tempo”, me fizeram pensar se coincidência existe, porque o texto que traduzo é exatamente sobre o tempo em uma obra do século VII. A ciência do cômputo já existia há muito tempo na história humana, mas realmente nesse século houve vários trabalhos sobre o tema, mas não vem ao caso.
A ilusão e o jogo em II são dignos de nota também: palavras despertam imagens, no espaço em branco da folha, você insere o que ali foi descrito. Em diante, as imagens começam a ficar mais férteis e os textos mais curtos, por exemplo uma “Narrativa Épica” (p. 36) de duas palavras.
Um coro de fantasmas e a poesia para morte arrematam em XI e XII, respectivamente, pergunta e resposta sobre amar. A conjuração de memórias que tão poucas palavras trazem são senão mais uma vez reflexo de nosso desejo por um lado e do alheio fragmento por outro. Finalmente, na conclusão dessa poderosa seção, um brinde ao grupo de poetisas de Gabriela, ou melhor, seus restos mortais:
“Já amamos a morte,
aos ossos de sylvia plath
aos cabelos de ana cristina césar” (p. 44).
AO REDOR DA MESA
Há poucas coisas tão universais quanto o existencialismo, por isso “entre o ser e o nada, você” (p. 53) é um verso para quem já se deparou com o vazio do existir. Contudo, sei que há coisas ali inimagináveis ou não-poderosas ou não-objetos-de-desejo para mim. A aura feminina de Greta é patente a começar pelo título, mas igualmente, com as ilustrações (comento a seguir). Ainda, o próprio vazio ou vacuidade é uma característica essencialmente feminina, segundo aprendi num curso de filosofia chinesa. A masculinidade, pelo contrário, possui a posse, completamente antinaturais somos então nós homens que preenchemos violentamente a ausência. Além disso, mencionando o “o Eu poético viril”, há algo consistentemente presente na poética de Gabriela: a readequação de fragmentos, como se vê com “não espere que alguém venha aqui e te abrace”, já mencionado antes.
Breve interlúdio: em um dos registros mais antigos da língua italiana, em sua transformação a partir do chamado “latim vulgar”, o chamado L'indovinello veronese, dizia ser o escritor alguém que ara e semeia o prado branco (um papiro vazio) com sementes pretas (as letras). Isso nos leva às ilustrações, de Gabriel Mendes, um caro amigo.
Sobre elas, os traços sutis-mas-fortes endossam e reforçam o caráter de pouca presença. Em fundo preto com linhas brancas (como se imagem e texto fossem opostos complementares), figuras femininas surgem: uma garota tendo seu cabelo trançado, depois outra (?) com uma trança mais longa e levitando, corações etc. A minha ilustração favorita é a que abre a seção Ariel a teus pés, Joana D’Arc na fogueira. A forma dos traços é semelhante a outra ilustração contida nas primeiras folhas (ver acima), aludindo a uma vagina.
ARIEL A TEUS PÉS
Sylvia Plath e Ana Cristina César unidas por meio do título dessa última leva de poemas. Encerrando o livro, minha predileção pelo último poema “Livro: o desaparecimento da mulher que digita” se faz por dois motivos: o primeiro deles é pelo finale ideal ao tema principal da obra, a ausência que traz o mistério inebriante. Mistério como representado na releitura de "América Invertida” (1943), de Joaquín Torres García, a qual propunha que nosso norte deve ser o sul. Essa suposta inversão curiosa também aparece nos versos “cabelos enraizados no céu”. O segundo motivo está no verso final “No brasil não tem montanha”.
FIM
Afirmações certeiras como essa deveriam nos contentar ao invés de buscar significados mais profundos em fragmentos, em hagiografias, em enigmas etc. Todavia, não fosse isso, não teríamos poesia, nem filologia, consequentemente, não haveria Greta para entrar.
Finalmente, Greta é uma ótima leitura para quem é entusiasta do verso e da prosa poética, mas não só, não só. E, Gabriela, como de praxe, diz muito em muito pouco. No primeiro aniversário do livro, essa foi minha tentativa de ampliá-lo mas não encerrá-lo, pois é impossível - já dissemos: o amor pela palavras é infinito. Também essa singela contribuição é feita sabendo que logo mais virão não só outros comentários, ensaios e resenhas sobre Greta, bem como muitos novos trabalhos de Gabriela, tornando meu discurso obsoleto e fantasmagórico.
Post Scriptum 1: Não contribui no crowdfunding para a versão assinada pela autora, pois tinha a esperança que conseguiríamos nos encontrar presencialmente na UNIFESP antes do meu fim de graduação… Triste engano, havia um genocidio em curso.
P.S.2: Mais uma vez, como lhe escrevi no correio elegante em junho de 2019: sucesso em suas poesias!
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